Skeg e leme em caiaques oceânicos

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Lemes e skegs são ferramentas muito úteis em um caiaque oceânico. Entenda um pouco sobre o funcionamento de cada um deles.

Um caiaque bem projetado deve orçar, o que significa que, quando sujeito aos efeitos do vento, o barco vai virar para o vento, ficando paralelo a ele.

A quantidade de área de superfície do caiaque e sua distribuição afetarão o modo como o barco responderá com o vento. Caiaques de baixo volume têm muito pouca área de superfície acima da linha d’água e apresentam menos área de atrito.

 

Weathercocking

Weathercocking é o termo usado para mensurar a força aerodinâmica ou influência da pressão do vento em um objeto relacionados a velocidade e direção de ambos. É usado em na aviação, na indústria automobilística e até pela NASA em seus foguetes.

weathecocking orçando caiaque

Quando o caiaque está em movimento caso haja um vento lateral, há uma tendência para que a popa seja deslocada e o caiaque orce, de proa pro vento.

Note que quando você não está em movimento, esse efeito não ocorre. O caiaque é apenas empurrado lateralmente pelo vento.

A entrada da água pela proa é mais suave, pois ela corta ou divide a água de forma gradativa, espalhando a pressão ou turbulência de forma suave no percorrer do casco.

A turbulência é criada em quase todo o casco do caiaque à medida que a água flui pelos lados e pela popa do barco após a passagem da água.

A popa no fim da área de turbulência é a parte mais “livre” do casco.

Fluxo de água no design de caiaque
O fluxo de água no design de um caiaque oceânico

Há algumas técnicas interessantes para contornar o efeito causado pelo weathercocking, desde movimento de quadril, varreduras e adernamento. É interessante ler esse artigo do Greg Stamer, lá ele cita essas técnicas groenlandesas.

Como os ventos laterais ou diagonais têm maior efeito na popa de um caiaque, é nesse ponto que a força estabilizante deve ser aplicada para remediar a situação. Aí que entra o skeg ou leme.

Skeg no caiaque oceânico

caiaques oceânicos

Um skeg é uma lâmina retrátil que sai de um compartimento embutido próximo a popa de um caiaque.

O design de um caiaque oceânico com estilo britânico possui curvatura mais acentuada no casco, o que permite ser mais manobrável.

 

O skeg é a sintonia fina do caiaque oceânico britânico, é uma ferramenta que auxilia a segurar a popa de forma dinâmica contra o a tendência de orçar em ventos e também em correntes de marés mais intensas.

O skeg não gira e não tem intenção de direcionar o barco e sim ajustar sua capacidade de andar em linha reta.

Como a profundidade do skeg é determinada pelo remador, por uma caixinha ao alcance das mãos, ele não é uma simples quilha que você baixa e levanta totalmente.

Skeg em caiaque oceânico
Skeg em caiaque oceânico
Caixa de comando do skeg em caiaque
Caixa do skeg ao lado do cockpit

De acordo com sua necessidade você pode baixar aos poucos e ir medindo como o barco se comporta. Não só como ferramenta para ventos, correntes e ondas ele serve. Se você precisa remar em linha reta por um longo período, ele extendido ajudará, impedindo que pequenas correções sejam necessárias durante o caminho.

É um ajuste dinâmico, como uma sintonia fina de uma TV. Vamos supor que estamos em uma situação de vento lateral:

Skeg recolhido 1/2 skeg Skeg extendido
Fácil manobrar Manobra menos Manobra muito pouco
Mínimo tracking* Tracking variável Máximo tracking*

*Tracking é a capacidade do barco de andar em linha reta.

Características em geral do Skeg

  1. Serve para segurar a popa mas não direciona o barco.
  2. É recolhido de forma ajustável ou gradativa, dando mais liberdade.
  3. Como todo sistema mecânico, pode falhar em algum momento, entrar pedrinha na caixa de comando, travar, etc.
  4. É o estilo mais purista da escola britânica e estimula o remador a aprender outras técnicas e adernamento para ter o barco sob controle.

A única maneira errada de remar é aquela que lhe causará lesões. A única regra é se divertir com segurança.

leme no caiaque oceânico

Embora seja muito comum pensarem que o leme é o que dá direção em um caiaque, essa não é sua principal função.

Quando foram inventados os primeiros caiaques não havia sistemas complexos de lemes. As manobras eram feitas com técnicas criadas há centenas, talvez milhares de anos pelos povos do norte, do Mar Ártico.

Leme em caiaque oceânico
Leme retrátil em caiaque oceânico

A maior parte das técnicas usadas até hoje são remanescentes desses povos precursores da canoagem, em especial os groenlandeses. Leia mais em Origem do caiaque e da canoagem.

O leme retrátil pode ser muito útil em um caiaque oceânico e pode assim como o skeg ajudar a manter o caiaque no rumo, apesar de ventos e correntes.

Porém como o leme está além da popa e é muito mais profundo, ele tem um poder ainda maior de estabilizar a popa. Se ele fosse fixo, certamente seria muito difícil conseguir fazer curvas com o caiaque.

É aí que entra essa diferença básica, o leme, da direção ao barco. O mais comum é através de um sistema de trilhos com pedais (finca-pés).

Características em geral de um leme

  1. Podem ser fixos ou retráteis à partir de um sistema de cabos próximo do cockpit.
  2. Aumentam o controle do barco em situações de ventos e marés
  3. Ajudam a dar direção deslocando em curvas abertas à partir da popa
  4. Como todo sistema é passível de falha mecânica, desde cabos presos ou estourados até problemas nos trilhos.
  5. Como é muito comum iniciantes usarem leme pela facilidade de fazer curvas, tendem a gerar uma zona de conforto para aprender outras técnicas de manobras.

 

Conclusão

Comparar skeg e leme não faz muito sentido. Eles são ferramentas distintas. Tudo depende do uso e do que planeja com o caiaque. Não há problema nenhum remar um barco sem skeg e sem leme. Isso exigirá um pouco mais de treino e conhecimento, em alguns momentos mais esforço também, mas esse conhecimento poderá ser muito útil para tornar as remadas ainda mais seguras em diversas situações.

A única regra é divertir-se com segurança.

2 Comentários

  • Parabéns, (?) pela iniciativa do blog e regularidade nos posts. Com certeza contribui muito com a canoagem oceânica no Brasil. Tenho dois caiaques, um com skeg e outro com leme. Antes tive um que não tinha nenhum dos dois. A diferença é brutal. Como apenhei quanto tinha um vento de popa!
    Particularmente, prefiro o skeg, apesar do leme ser muito útil quando está remando e precisa ter maior manobrabilidade.
    O texto está muito bom. Só agora pude entender porque a popa é mais vulnerável ao vento. Obrigado. Uma sugestão: utilizem esta imagem no post http://solentseakayaking.co.uk/wp-content/uploads/2010/08/Skeg-Positions.jpg ela me ajudou muito a saber “dosar” a extensão do skeg quando estou remando.

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