Construção de caiaques e remos em madeira

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Me lembro que já no primeiro dia em que sentei em um caiaque oceânico, em um curso do Christian Fuchs, em meados de 2013, tive a oportunidade de remar com remos groenlandeses.

Eram dois remos, um de madeira, outro de carbono, da extinta Northern Light Paddles, do Paul Diner.

Notei que no curso, quase ninguém se interessava pelos reminhos, pois à primeira vista parecem contra-intuitivos, por sua forma de “palito”. Eles são diferentes do desenho que conhecemos sobre remos desde crianças.

Eu. como me interesso de saber as histórias das coisas, ao saber que esse tipo de remo groenlandês, em madeira, é o precursor de todos os remos já feitos, que eles eram desenhados para condições específicas, por quem usava o caiaque como um meio de transporte, caça, e sobrevivência, além de resgates em regiões com climas polares, já passei a curtir os remos groenlandeses logo de cara!

Eles são silenciosos, eficientes, resistem pouco ao vento, saem da água com mais facilidade pela tendência da madeira de flutuar,  são simétricos e isso possibilita fazer rolamento de inúmeras formas sem precisar se preocupar tanto com a posição do remo.

Nessa época eu estava empolgado em fazer coisas com madeira. Sempre tive facilidade com ferramentas e queria conhecer mais como um hobby.

Comprei um livro do Pierre Gutelle chamado Construa seu Barco. Lá se falava de todas as etapas, ferramentas, materiais. Um livro em preto e branco, já meio antigo, comprado em sebo, mas que me fez aprender um pouco sobre o mundo das plainas, serras e lixas. Eu já tinha uma serra tico-tico e fui lá me aventurar a fazer eu mesmo o meu remo groenlandês.

Fiz um primeiro que ficou horrível, pois ficou realmente um palitinho fino de 9 ou 10 centímetros de largura. Ainda assim ele funcionava, mas eu precisava melhorar. Fui na madeireira e comprei batentes para portas em madeira cedro arana, para uma nova tentativa. Se tivesse mais êxito, do conjunto de batentes faria dois remos e talvez da madeira menor sairia até um norsaq, que é um instrumento pequeno, criado para aumentar a propulsão de arpões de caça e que eram usados também pelos groenlandeses para apurar as técnicas de rolamento, até chegar ao hand roll, ou rolamento apenas com as mãos, sem remos. As técnicas precisavam ser apuradas pois não havia segunda tentativa em um mar com temperatura de 0ºC.

Do It Yourself ou DIY, significa “Faça Você Mesmo”. É um movimento, hoje impulsionado pela internet entre canais, blogs e sites, que compartilham formas de você aprender a fazer algo sozinho, desde um chantilly caseiro ou até mesmo uma reforma na casa, qualquer coisa. Existe claro o motivo econômico, mas o maior intuito é o prazer e o conhecimento em saber fazer você mesmo.

Comecei a procurar por projetos na internet de remos groenlandeses. Foi uma busca incansável por vários dias, favoritando um monte de sites, até que achei esse vídeo abaixo e uma série de fotos de projetos em baixa resolução que não ajudavam muito mas continham as medidas em pés e polegadas.

Ainda nessa época, conheci um carpinteiro naval Argentino chamado Eugênio Solari, que odiava trabalhar com resinas e coisas sintéticas. Me identifiquei com isso, eu também não queria lidar com produtos químicos. Durante um mês aprendi muito com ele lá em Bertioga-SP, onde ele morava.

Ele estava fazendo um SUP ou Stand Up Paddle baseado no modelo Fanatic, tudo com madeira e impermeabilizados em resina vegetal natural (sem solventes tóxicos), feita à base de óleo de mamona. Ele já havia feito vários caiaques de madeira anteriormente e decidimos fazer alguns remos groenlandeses. Aprendi a usar melhor as plainas e que o processo de acabamento com lixas é muito minucioso, em muitas etapas, parecendo não ter fim. Cada remo demorava cerca de 3 dias para ficar 100% finalizado.

Eu também o ajudei nas primeiras etapas da construção do SUP e foi muito curioso entender o processo.

O Eugênio usava o software do Nick Schade, da Guillemot Kayaks, chamado Kayak Foundry. Lá você pode importar um projeto desenhado em 3D (comprado por aí) e pode modificar suas dimensões e ver os gráficos de performance, estabilidade se atualizarem automaticamente.

Depois é só imprimir um projeto, desenhá-las em cima de compensados (as chamadas cavernas que formam o molde do corpo da embarcação) e cortá-las com a serra.

Foi uma experiência incrível, o Eugênio foi uma das pessoas mais inteligentes e pacíficas que já conheci.

O projeto durou pouco e o Eugênio se mudou para Brasília. Os reminhos ainda não tinham o shape ideal, mas acabei ficando com deles. Foi um companheiro de boas remadas até ser quebrado anos atrás, numa onda lá na Praia Brava de Ubatuba, no Assessment que antecede o curso de instrutores da ACA.

surfando de caiaque oceânico
reminho de madeira estilio groenlandês sendo usado no surf, em Bertioga.

É muito comum fora do Brasil essa coisa de fazer o próprio caiaque. Pais fazem caiaques e botes para seu filhos, amigos se reunem para fazer caiaques, há cursos de construção de caiaques em vários países. No Brasil há pouco movimento, mas ele existe.

No ano de 2018 tentei fazer um caiaque skin on frame. Comecei a montá-lo quando morava em Cananéia, mas nunca terminei. Na verdade faltava somente revestí-lo com tecido e impermeabilizá-lo, mas faltava tempo e tive que me mudar de cidade. Hoje ele decora a parede da casa de um amigo, o Orlando, lá em Cananéia. 🙂

caiaque skin on frame decorando parede

Agora, no fim de 2019, comprei meu primeiro remo groenlandês do Ben Paddles lá de Ilhabela. Muitos amigos já haviam comprado e o elogiavam. Até que experimentei num passeio em Cananéia e gostei muito.

Um remo groenlandês de madeira não deve ser muito flexível na água, porém também não tem como ser rígido como uma barra de ferro e o Ben acertou nesse equíbrio. Uma coisa bacana é que o design do cabo segue o modelo shoulderless, com a diferença gradativa entre a pá e o cabo muito suave, o que torna muito mais gostoso percorrer a mão por todo o remo, ideal para treinar as técnicas de canoagem groenlandesas.

Uma coisa bacana é que o remo do Ben é impermeabilizado com óleo vegetal, como faziam os povos do norte, precursores da canoagem. O remo fica bem protegido e não fica com aspecto oleoso. A madeira absorve o óleo pouco a pouco em um processo de lixamento manual, uma obra de arte sem dúvida. São remos totalmente orgânicos, que assim como o meu quebrado e abandonado numa praia em Ubatuba não geram impactos, não poluem.  Estou sem fotos do meu pois está em Cananéia, mas tem umas fotos do meu amigo Jorginho, fundador da Eco Rio, escola de canoagem ACA no Rio de Janeiro.

É bacana olhar sem preconceito e ver que sempre há outras possibilidades. É claro que nem todos podem se identificar ou querer resgatar algo da história da canoagem e tudo bem, não há mal nisso. Mas se você se identifica e possue facilidade, por que não botar a mão na massa e ter o prazer de remar com algo feito por você?

Ou se você valoriza mas não tem aptidão, comprar de alguém que fabrique, um reminho groenlandês ou até um caiaque de madeira, por que não?

Aqui estão alguns links sobre construção e projetos de caiaques:

 

Há muitos livros em inglês na Amazon também, alguns com muitas referências positivas sobre eles em sites de construção, que podem ajudar. O próprio Nick Schade escreveu livros sobre o tema.

livros do nick schade sobre construção de caiaques

Deixo abaixo vídeos fantásticos que servem de inspiração, um feito pelo Nick que tem também um canal incrível no Youtube, e outros do SeaWolf sobre construção de um skin on frame tradicional.

Bom essa foi minha experiência, pesquisando e experimentando o uso da madeira na canoagem. Se você tem algo interessante para compartilhar e agregar ao conteúdo, compartilhe através dos comentários.

Valeu!

 

2 Comentários

  • Sensacional o texto e as explicações… muito proveitoso, parabéns.
    Sou de Rondônia na região amazônica e apaixonado por madeira, marceneiro de formação, estou interessado em produzir kayaque e pranchas de stand padle em madeira.
    Se tiver como me auxiliar fico muito grato

    • Obrigado João! Aqui no Brasil existem espalhados por aí alguns construtores de caiaques em madeira. Como mercado isso praticamente inexiste então há pouquíssimo conteúdo documentado em português. Geralmente fazem pelo prazer de fazer mesmo.

      O Leonardo Esch, instrutor ACA lá no sul tem um post muito legal. Ele recebeu o Eiichi Ito, um japonês que é um dos grandes divulgadores da canoagem oceânica, nesse aspecto tradicional no mundo: http://leonardoesch.blogspot.com/2012/04/qajaq-sof.html

      O Christian Fuchs fez um vídeo muito legal também, junto com o Paul Diner, citado no texto: https://www.youtube.com/watch?v=U4xAhQN9jJI

      Um abraço!

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